quinta-feira, 7 de março de 2013

Uma folha de papel

Encontrei no asfalto 
Uma folha de papel abandonada
Sem forma, sem rabiscos, sem jeito
Suja, pisoteada, ignorada
Poderia ser pedaço de uma carta
Poderia ser parte de um livro
Quem sabe, 
Guardar o segredo mais profundo de um diário
Ou expor a confissão secreta de um assassino 
Mas foi só folha em branco, em vão

Largada no chão, corria ao vento
Desejando ser tocada por mãos que escrevem
Ser resgatada por olhos que leem
De repente, foi amassada sem dó nem piedade
Sem cerimônia nem maldade
Resmungando um barulho em protesto
Silenciou-se ao perceber que fim tinha a dobradura
E lá estava a felicidade inesperada:
Descobriu-se barquinho 
Na palma da mão de um menino
Num dia de chuva

(Isabela Xavier)

Imagem: http://barbara-wordswordswords.blogspot.com.br

segunda-feira, 4 de março de 2013

Travesseiro

Embolou seu travesseiro embaixo da cabeça
na tentativa de fazê-lo mais macio.
Hoje o travesseiro improvisado estava magro:
as folhas de jornal eram finas, o asfalto era duro.

(Isabela Xavier)

Wet asphalt by dubbelt_halvslag
Wet asphalt, a photo by dubbelt_halvslag on Flickr.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Metade?

free to yourself by photographer padawan *(xava du)
a photo by photographer padawan *(xava du) on Flickr.

Não, rapaz
Você não me completa
Porque eu já sou inteira
E não me falto
Eu me farto de mim
De você não me preencho,
Transbordo

(Isabela Xavier)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Tentação

A ti
Exponho-me toda transparente
Com as cartas na mesa
E toda nua de prudência

Fraquejo nos pontos fracos
Enlaço-me em teus braços
Feito nó apertado
Para desatar em beijos roubados

Tenta-me 
Que eu não tento me reter
Mas te tento e não te detenho
Pois sabes que já me tens

(Isabela Xavier)

The Absence by Michelle Brea
The Absence, a photo by Michelle Brea on Flickr.
 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Escolha estável

place for you by Victor Bezrukov
place for you, a photo by Victor Bezrukov on Flickr.


Livre da tua insensatez
Não me submeto a oscilações
Não fico dependente de um talvez
Nem de instáveis emoções

Prefiro a ausência certeira
À frágil presença vacilante
Que ora se mostra, ora se esgueira
E torna inseguro cada instante

(Isabela Xavier)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Obstáculo

Amor é ponte
E não barreira
Amor é caminho
E não bloqueio

Se tu encontras a cada esquina
Um obstáculo
Invisível a olho nu
Mas saltante aos teus olhos
És tu o próprio obstáculo voluntário
De tua falta de amor

Se não queres ser ponte,
Então não finjas dar passagem

(Isabela Xavier) 

Go on, pass through by Caroline Buranelli
Go on, pass through, a photo by Caroline Buranelli on Flickr.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Diálogo

Discussion by Alain Bachellier
Discussion, a photo by Alain Bachellier on Flickr.

Suas palavras eram muitas
Em número
Recitadas com destreza
Mas ecoavam sempre vazias
De alma e de verdade

Meu silêncio era réplica
Um silêncio cheio 
De respostas explícitas
Vibração de palavras mudas
Que gritavam significados

(Isabela Xavier)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Partida

Gotas de chuva a pingar
Acariciavam a terra molhada
Exalando o cheiro familiar
Impregnado de lembranças mofadas

Sentada à janela, ouvia a sinfonia
De gotas d'água batendo contra o vidro
E do trem que ao longe partia
Levando embora um amor antigo

Caíam os pingos de chuva lentamente
À luz vacilante da alvorada
No peito a dor pulsava latente
  A esperança partira com a madrugada

(Isabela Xavier)


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Exausto

The lonely walker [..Dhaka, Bangladesh..] by Catch the dream
The lonely walker [..Dhaka, Bangladesh..], a photo by Catch the dream on Flickr.

Curvado e fechado em si
Arrastava-se o homem
Pelo mundo inóspito
Às suas ilusões

Carregava o peso da vida
Sobre os ombros
E o peso da alma
No olhar

(Isabela Xavier)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Preamar

Dawn Storm by Jamey Pyles
Dawn Storm, a photo by Jamey Pyles on Flickr.

A imensidão do mar 
Toda azul e cristalina
Beija-me os pés
Convidando-me a uma dança perigosa
Em que meu corpo fica solto
Embalado pelas ondas bailarinas
Suavemente traiçoeiras
São pensamentos que emergem
Do mar 
  de mim  
Querem me afogar em suas entranhas
E arrastar-me para o fundo do que há
O fundo do que houver
Se houver um fundo qualquer
Nesse azul extenso
Sobre a extensão de nada

(Isabela Xavier)

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